Psicólogo pode dar conselhos?

“Se conselho fosse bom não se dava, vendia”

Quantas vezes ouvimos esta frase quando alguém dá aquele conselho que ninguém pediu, não é mesmo? Só que muitas vezes as pessoas esperam que o psicólogo dê “aquele conselho”, ou melhor, venda aquele conselho (afinal o cliente paga a sessão para o psicólogo). Até mesmo o psicólogo(a) se pega quase fornecendo conselhos de como seu cliente deve agir para resolver seus problemas, mas aí surge a seguinte questão: psicólogo pode/deve dar conselho para seu cliente?

Alguns profissionais não vêem problemas e outros sim, eu estou com Carlos Augusto Medeiros (2010) que só vê seu uso sendo recomendado em situações bem específicas.

Primeiramente devemos lembrar para o que serve a terapia: produzir auto-conhecimento e gerar mudanças a partir deste conhecimento. Então talvez a pergunta seja: dar um conselho produz quais efeitos no cliente em direção a seu desenvolvimento pessoal?

Em alguns casos, principalmente com clientes que ainda não possuem muita habilidade para perceberem o que fazem e as consequências destas ações, pode ser necessário dar  alguns “conselhos” para que o cliente faça alguns testes e comece a analisar melhor as situações, mas estes conselhos devem ser gradualmente substituídos por dicas cada vez menores e mais amplas (o ideal é que o cliente chegue ao final da terapia fazendo suas análises sem a ajuda do psicólogo). A ideia é que o cliente analise e formule, ele mesmo, regras que estejam de acordo com as situações que tem vivenciado.

Agora vamos pensar no caso em que o psicólogo passa aquele super-conselho pro cliente, dizendo exatamente o que o cliente deve fazer. Este, na “melhor” das hipóteses, segue o conselho, faz tudo certo e as coisas ocorrem da “melhor” maneira possível, com o cliente conseguindo o que desejava! E então, Diego, qual o problema do conselho neste caso? Ele fez exatamente aquilo que o Psicólogo disse! Podemos destacar, pelo menos 3 problemas:

1.       Dependência: quem gosta que seu cliente seja dependente? Bem, este alguém certamente não é o psicólogo. O psicólogo deve dar condições para que o CLIENTE aprenda a analisar as situações e pense em alternativas e possíveis consequências por ele mesmo. Senão, a cada novo problema ele virá pedir conselho e aumentar ainda mais a dependência do seu psicólogo. Nunca é demais lembrar: o psicólogo pode AUXILIAR neste processo e não EXECUTAR este processo pelo cliente.

 2.       Insensibilidade: em alguns casos pode ocorrer do cliente passar a seguir este conselho do psicólogo em diversas situações, generalizando o que deu certo em uma situação para várias outras. Só que muitas vezes as situações mudam e o cliente, por estar “mais ligado” naquele conselho perde a sensibilidade de identificar que a situação mudou, persistindo em ações guiadas por tais conselhos.

 3.       Submissão: muitas pessoas foram punidas por não seguirem e/ou discordarem de conselhos/regras, principalmente por figuras de autoridade (MEDEIROS, 2010). Logo, a pessoa seguir o conselho do terapeuta pode ser apenas mais uma amostra de sua submissão diante destas figuras e não um passo em direção a melhora (sim, em diversas situações é bom que o cliente discorde de seu psicólogo!).

submissao

 Mas e se o conselho der errado, hein? Afinal, nem todas as análises que fazemos estão corretas. Pois é… Este é mais um problema. Caso isto ocorra, esteja preparado para consequências desagradáveis no vínculo cliente/psicólogo(a), simplesmente porque caso o conselho der errado é bem provável que isto traga mais sofrimento para uma pessoa que busca o alívio do sofrimento que já tem.

 “Você disse que ia funcionar! E agora que eu fiz e deu errado, hein, hein?”

E quando o psicólogo dá um conselho/regra e o cliente, simplesmente, não segue? Bem, podemos levantar as possíveis consequências:

  1. Formulação de um rótulo de “incompetente”: mesmo concordando com o conselho e sabendo que era “pro bem dele”, ele não o fez e pode passar a se sentir incompetente, podendo diminuir a sua motivação para mudança depois desse episódio. Vale muito mais a pena discutir com o cliente o que é possível naquele momento e de acordo com a realidade dele.
  2. “Mentir”: o cliente pode, simplesmente, mentir. Não porque ele seja malvado ou qualquer outro julgamento moral, mas para evitar críticas ou até mesmo ganhar elogios e coisas do tipo de seu terapeuta.
  3. Resistênciaalguns clientes podem ser bastante agressivos ao ouvirem alguém lhe dizendo o que deve fazer. Logo, na maior parte dos casos, é muito melhor fazer com que o cliente seja parte integrante da formulação “do que fazer”.

Ou seja, pode ser muito útil dar conselhos, mas em situações bem específicas e com uma função bem diferente de um “conselho de amigo”. De maneira geral, a idéia é fazer com que o cliente não precise deste conselho, e forneça ele mesmo suas regras, de acordo com as suas vivências.

Todo conselho, bem como qualquer ação do psicólogo, deve estar baseado em uma boa análise das funções do comportamento do cliente. Então, clientes/pacientes, nem todo psicólogo que responde uma pergunta com outra pergunta está te enrolando…

 Se o terapeuta está constantemente preocupado em ‘trabalhar para valer’ mais do que o cliente, poderá na verdade comprometer o projeto, não dando ao cliente oportunidade de desenvolver habilidades que lhe permitam lidar com situações e tomar decisões na vida. (Zaro e cols, 1977/1980)

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Leituras recomendadas, principalmente para estudantes de Psicologia:

Disponível na internet: “Regras e auto-regras no contexto terapêutico” – André Luis Jonas

Capítulos de Livro:

Comportamento Governado por Regras na Clínica Comportamental – Carlos Augusto Medeiros. No livro “Análise Comportamental Clínica – aspectos teóricos e estudos de caso”.

Instruções e Auto-instruções: Contribuições da Pesquisa Básica. – Josele Abreu – Rodrigues e Elisa Tavares Sanabio – Heck. No livro “Terapia Comportamental e Cognitivo-comportamental – Práticas Clínicas”.