Homossexual precisa de cura? E se ele pedir?

“Elizabeth tinha 14 anos e percebeu que gostava de meninas. Elizabeth estava lutando para conciliar seus sentimentos com a sua própria fé. Além disso, temia a reação dos pais quando revelasse sua sexualidade. Foi encontrada enforcada poucas horas depois de enviar uma mensagem para um amigo. O nome não é fictício e Elizabeth tinha nome, sobrenome, foto e família.”

Lizzie-Lowe

Foto: Reprodução da Internet.

É possível que algumas pessoas como ela procurem terapia e peçam ao psicólogo: “Por favor, eu não quero ser assim. Me faça ser heterossexual”. Muitos argumentam que este pedido já seria suficiente para tentar “reverter” a sexualidade de Elizabeth. A discussão sobre o tema costuma ser bem intensa e envolve diversas esferas da sociedade: representantes religiosos, cientistas, pseudocientistas, psicólogos, pseudopsicólogos, parentes, apresentadores de programas de auditório e por aí vai.

Para além das tentativas malsucedidas de “reversão” ou “reorientação”, será que este pedido deveria ser atendido de forma imediata e sem questionamento?

Diferença entre Queixa e Demanda.

Todo e qualquer psicólogo deve saber diferenciar entre “queixa x demanda”. Enquanto psicólogos, temos que ter a capacidade de entender que a fala de um cliente reflete o ambiente que ele está vivendo e muitas vezes (maioria esmagadora) esta fala não traz consigo tudo o que está ocorrendo na vida do cliente.

Se uma pessoa chega para um médico e reclama que está com uma febre muito alta, seria o mais indicado dar um remédio para diminuir esta febre e pronto? Ou seria melhor investigar melhor para saber qual a origem desta febre?

O mesmo ocorre com os problemas psicológicos e, em especial, com homossexuais que podem estar “querendo ser curados”. Na maioria das vezes em que uma pessoa afirma querer “se livrar de uma condição” é porque a pessoa está tentando evitar uma situação desagradável.

Ao dizer que “não quer ser homossexual” o indivíduo pode estar falando nada mais, nada menos que está passando por situações desagradáveis como consequência de ser homossexual e não porque é homossexual.

E existe diferença? Sim, existe. Homossexuais costumam ser discriminados dentro e fora da família e qualquer pessoa que tenha sido discriminada, seja qual for o motivo (cor de pele, condição social, roupa, etc.), sabe que isto não é agradável. Se o problema não é com a condição em si, mas sim com a forma que algumas pessoas lidam com esta condição, a demanda pode ser bem diferente, assim como o objetivo da terapia.

Terapia de Reversão da Sexualidade? É possível mudar a orientação sexual de alguém?

Existem relatos de pessoas que afirmam ter “deixado de ser homossexual”, passando a se relacionar com pessoas do sexo oposto, tendo filhos e e etc. Várias dessas pessoas afirmam não mais sentir vontade de se relacionar com pessoas do mesmo sexo.

Entretanto, com falei acima, alguns dados deste tipo de intervenção demonstram que as consequências podem ser desastrosas! As consequências vão desde ansiedade e depressão até a automutilação, pensamentos suicidas, entre outros.

Sendo assim, ainda que um método de “reversão” seja possível (note que este termo é bem ruim porque parece indicar que todo mundo nasce heterossexual e depois vira homossexual, precisando ser revertido à condição inicial), será que vale a pena correr o risco de tantos problemas posteriores? Quais são os benefícios diretos para o cliente? Além disso, qual a motivação para se tornar heterossexual?

Capacidade de se declarar homossexual

Normalmente vemos as pessoas falando que as pessoas precisam “assumir sua homossexualidade”. Particularmente, acho o termo “assumir” meio problemático porque costuma estar vinculado ao sentimento de culpa, como uma forma de “assumir” erros. Prefiro o termo declarar sua homossexualidade (mas ainda assim acho que pode existir termo melhor).

Mas vamos lá! Nem todas as pessoas conseguem se declarar homossexual e os motivos são os mais óbvios possíveis: ao optarem por tornar isso público terão que passar por situações que provavelmente não serão agradáveis. Seus pais e familiares podem não receber bem a notícia, algumas pessoas podem se afastar, sofrer preconceito e outras podem até ser mais agressivas.

Neste cenário, muitas pessoas optam por “levar uma vida heterossexual”. Casam-se com alguém do sexo oposto, têm filhos e vivem sua homossexualidade escondidos (o livro “Segundo Desejo” traz mais informações e dados um tanto assustadores sobre essa realidade). Alguns passam a vida inteira tentando negar sua sexualidade, sem sequer se envolver com alguém.

A essa altura eu espero que você tenha percebido que o problema não é com a homossexualidade em si. A pessoa pode falar que está apaixonada por “fulano(a)” e que tudo que ela queria era se relacionar com tal pessoa, mas não pode deixar que isso aconteça porque teria que passar por muitos problemas.

Apesar da queixa ser “Não quero ser mais homossexual”, normalmente o(a) cliente possui uma demanda diferente: ele(a) precisa aprender a lidar com sua sexualidade e também de arrumar meios para conseguir se declarar homossexual diante das pessoas e enfrentar as consequências que resultarão deste posicionamento.

Este processo envolve desenvolvimento pessoal, criação de novos laços afetivos e redes de apoio, habilidades sociais para lidar e enfrentar situações constrangedoras e também habilidade para interpretar o que está afetando sua vida e seu bem-estar (habilidade necessária a todo e qualquer ser humano, hetero, homo, pan, etc.).

Conclusão

Ainda que existam relatos de que é possível modificar a sexualidade das pessoas, os processos que dão origem a esta mudança costumam causar consequências danosas. O que a realidade tem nos apresentado é que as pessoas não precisam de uma reversão ou cura (afinal, homossexualidade não é doença), mas sim de auxílio no processo de vivência da sua sexualidade, bem como suporte para lidar com as consequências problemáticas que podem advir ao se declararem homossexuais.

Talvez Elizabeth não tivesse cometido suicídio se tivesse conseguido desenvolver habilidades para lidar com sua sexualidade e falar de forma aberta com seus pais. Talvez possamos evitar vários casos como o dela auxiliando o desenvolvimento dessas pessoas e das pessoas que estão ao redor delas.

Este desenvolvimento pode se dar a partir de processos como a terapia, mas pode e deve principalmente ser desenvolvido entre as mais diversas pessoas: pais, familiares, amigos, escolas, etc. Quanto maior o diálogo, compreensão e aceitação das diferenças entre as pessoas, menor a chance que as pessoas sintam tamanho sofrimento apenas por se relacionar com pessoas do mesmo sexo.

Abraço e até mais!

Obs.: recomendo a leitura deste texto aqui para uma discussão mais aprofundada sobre a homossexualidade.