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Psicoterapia e Religião: um conflito necessário?

Durante o dia-a-dia costumo ver que muitas pessoas entendem a psicoterapia como sendo perigosa e até mesmo contrária a vida religiosa. Algumas pessoas consideram que ao recorrer ao psicólogo estão sendo fracas e não lidando da forma correta com o sofrimento. Mas será que existe este conflito? Vou abordar 3 pontos básicos sobre a relação psicoterapia e religião. Caso você tenha mais alguma dúvida é só comentar ao final ou me mandar um e-mail.

O que é Psicoterapia?

Se você já acompanha o meu site já sabe o que é psicoterapia. Mas se você está chegando agora, psicoterapia é um processo de autoconhecimento em que o psicólogo auxilia o desenvolvimento do seu cliente. Para isso ele se utiliza de perguntas, técnicas e análises que buscam fazer com que o cliente se conheça e possa, a partir disso, agir de formas diferentes.

Veja que é apenas um dos vários processos que podem auxiliar no desenvolvimento da pessoa para que ela tenha uma vida mais plena. E aí surge a pergunta: se a ideia é fazer com que você se torne uma pessoa melhor, por qual motivo isso seria contrário a vida religiosa?

Possíveis “pontos de atrito” entre a Psicoterapia e a Religião

1. Pensar em Agir de Forma Diferente.

Um dos possíveis problemas que uma pessoa religiosa pode ter ao lidar com a psicoterapia é que este processo nos leva a pensar sobre o que estamos fazendo, como estamos fazendo e identificar se existem outras formas de viver que nos trarão maior satisfação com a vida.

Ou seja, para algumas pessoas o simples fato de pensar em agir de forma diferente da que ela acha que está de acordo com a religião é extremamente incômodo. Mas note que é de acordo com o que a pessoa “acha“, ou seja, como ela interpreta que deve viver a religião. Temos diversas pessoas que frequentam as mesmas igrejas e algumas lidam bem com a vida religiosa e outras sofrem de alguma forma.

Existe uma diferença entre pensar e agir de forma diferente e pensar e agir de forma oposta. Mas parece que algumas pessoas pensam que ao entrar na psicoterapia irão se transformar em pessoas opostas ao que elas são e não é bem assim. Ao entrar em psicoterapia, agir de forma diferente nada mais é do que agir de maneira a sofrer menos e se sentir mais feliz.

2. Interpretação do Sofrimento

Algumas interpretações religiosas do sofrimento podem fazer com que a pessoa entenda que nada tem a fazer com o sofrimento. Colocam o sofrimento como algo que é preciso suportar sozinho e quanto mais sofrimento “melhor”.

Em alguns casos, a pessoa não pode sequer questionar sobre o sofrimento. Ela deve aceitar o sofrimento e esperar.

Para os psicólogos sofrer é natural, afinal de contas a vida não é feita apenas de coisas boas.

o que é a vida

Entretanto, sofrimento não é algo que precisa se perpetuar pelo maior tempo possível. Pelo contrário, espera-se que a pessoa aprenda a lidar melhor com as situações adversas para que em situações futuras ela sofra menos.

Sendo assim, se a pessoa entende que o sofrimento é algo que é uma provação pela qual ela precisa passar sozinha, dificilmente ela buscará terapia. Mas se ela entende que o sofrimento faz parte da vida e que pode lidar com ele com o auxílio da religião e também de outras pessoas, conseguirá entender que a psicoterapia é apenas um dos auxílios possíveis para viver melhor.

3. Medo de Perder a Fé

Algumas pessoas têm receio de perder a fé durante o processo de psicoterapia ou que o psicólogo enxerga a religião e a religiosidade como um problema a ser combatido. O processo de psicoterapia não serve para orientar a pessoa a ser menos ou mais religiosa.

Inclusive, em alguns casos o fato de pertencer a um grupo religioso pode auxiliar o processo de psicoterapia. Isso porque em muitos casos esse grupo é capaz de dar um bom suporte social para a pessoa, permitindo que ela se desenvolva ainda mais e melhor.

Além disso, o código de ética do psicólogo deixa bem claro que não cabe ao psicólogo orientar seu cliente para religião x, y, z ou não ter religião. Não existe “Psicologia Cristã” ou “Psicologia Umbandista”, nada disso. A Psicologia é um corpo de conhecimento científico e sua prática não deve estar vinculada à nenhuma religião.

O que pode ocorrer é que durante o processo de psicoterapia, algumas pessoas passem a viver a vida religiosa de uma forma diferente, mas isso não é o objetivo da terapia em si. Como a pessoa passa a pensar sobre a sua vida e em como gostaria de viver, algumas podem pensar que estão vivendo a religião de forma que está produzindo mais sofrimento do que alívio.

Ao se conhecer mais a pessoa será capaz de identificar o que vem causando sofrimento e o que causa bem-estar. Ou seja, a pessoa pode perceber que alguns aspectos da religião estão trazendo sofrimento e aprenderá a lidar com este aspecto de uma forma mais agradável.

Mas aprender a lidar de forma diferente com a religiosidade não é sinônimo de “perder a fé”.

Conclusão

Ao menos do lado da psicoterapia não existe nenhum conflito entre religião e psicoterapia. Um profissional ético deve ser capaz de atender seu cliente independente da religião e do grau de religiosidade que este venha a ter.

Caso o cliente apresente algum conflito com a sua religião, o espaço de psicoterapia costuma ser um dos melhores lugares para analisar este conflito. Isso porque o psicólogo não vai julgar se este conflito está certo ou errado, mas sim avaliar com o cliente o que pode ser feito para resolvê-lo.

Todo auxílio é bem vindo quando o que queremos é nos tornar pessoas com melhor qualidade de vida e menos conflitos e sentimentos negativos. Opções existem e cabe a cada pessoa decidir o que mais lhe agrada.

Abraço e até mais!

Imagem via Vi-Venes

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