Arquivos da categoria: Relacionamentos Amorosos

Será que você ama demais?

O problema é que eu amo demais!“, afirma Mariana*. “Eu não consigo me imaginar sem ele e tenho medo que qualquer coisa possa nos separar! Ai de alguma daquelas vagabundas que ele conhece tentar alguma coisa…“.

Ela é tudo o que eu tenho na minha vida!“, afirma Carlos*. “Eu não sei o que faria se alguém ousasse tentar nos separar! Não sei do que eu sou capaz quando penso na possibilidade de perde-la!“.

As falas acima foram criadas para ilustrar algo que, em nossa cultura, é visto como sendo “amor em excesso“. Apesar de terem sido criadas por mim, é comum conhecermos pessoas que falam as mesmas coisas com outras palavras.

O grande problema, na maioria das vezes, é como isto tem sido relatado pela pessoa que passa por esta situação e também em como nossa cultura rotula estas atitudes e sentimentos.

Meu objetivo com este texto é deixar bem claro que a forma como rotulamos esta situação pode favorecer ou impedir a busca por ajuda no tempo necessário, antes que problemas maiores ocorram.

 O que é amor?

“Se perguntar o que é amor pra mim

Não sei responder

Não sei explicar”

O amor é um sentimento difícil de definir, correto? Vou explicar o amor através de uma perspectiva que não encerra as outras definições possíveis. Basicamente temos 3 pontos essenciais (darei maior atenção ao 3º).

  1. Nossa espécie nasce com a capacidade de amar. A espécie humana é capaz de se apegar a outras pessoas, animais e objetos, criando esta ligação e cuidado com o “alvo” do amor. Isto é a base de onde precisamos partir: nascemos com a capacidade para amar. Todos nós temos hormônios, estruturas cerebrais e tantas coisas mais que estão envolvidas no amor.
  2. Nossa vida se encarregará de definir o que é amar, o que podemos fazer quando amamos, como tratamos uma pessoa quando amamos. Aprendemos muito sobre como amar em nossa primeira infância, mas não somente nela. Estamos aprendendo durante toda a vida, sendo assim é normal que acabemos por mudar nossa concepção do que é amor e do que fazemos quando amamos conforme temos relacionamentos diferentes, conversamos com amigos e outras pessoas sobre o que é amar e, afinal de contas, amando.
  3. A forma como a nossa cultura descreve o que é amor interfere na forma que avaliamos a nossa forma de amar. É comum escutarmos frases como “se não tem ciúme é porque não ama” ou “Isso é amor demais!”. Diante do que nossa cultura considera normal avaliamos se estamos dentro ou fora da “normalidade” e se precisamos ou não fazer algo a respeito. Temos, nos programas televisivos, uma excelente chance de analisarmos o que é considerado normal ou não e darei atenção a um programa específico: “Eu que amo tanto“.

 Eu que amo tanto

Lá estava eu, domingo passado (16/11/2014), curtindo o fim do final de semana e começou a passar um episódio desta série que está sendo exibida no Fantástico. A personagem de Susana Vieira se apaixona por um homem mais novo, algum tempo depois de passar pela morte do seu marido.

Este novo amor vai se desenrolando e a personagem ficando cada vez mais obsessiva, brigando, terminando o relacionamento, atacando as novas parceiras de seu ex-companheiro até chegar ao ápice do episódio: ela assassina o ex-companheiro.

Ao fim, presa, sem maquiagem e demonstrando estar totalmente acabada, ela dá o seu depoimento:

“Eu matei, eu matei mesmo. Eu matei porque eu amava demais esse homem. Eu só queria que ele me amasse. Eu só queria que ele voltasse pra mim. Será que isso é pedir demais? Será? Se ele não fosse meu ele não seria de mais ninguém. De mais ninguém!”

Entra a música com Milton Nascimento cantando “O que será que me dá, que me bole por dentro, será que me dá?”.

Fim do episódio. Nada mais é falado pelos apresentadores. Nem o rapaz que diz “Este medicamento é contraindicado no caso de suspeita de dengue” aparece para fazer um alerta sobre o que as pessoas acabaram de ver. Um direcionamento. Nada.


O seriado acabou trazendo alguns pontos que merecem atenção:

  • Pontos Positivos: traz a tona um assunto que costuma ser deixado de lado, que são pessoas que cometem loucuras em seus relacionamentos, tamanha a dependência que desenvolvem do outro.
  • Pontos Negativos: não sei se é algo que apenas eu senti, mas o episódio parece considerar a situação exibida até normal. De certa forma considera como “loucuras de amor”. Além disso, iguala uma situação de “total dependência” ao “sentimento de amar”.
  • Ponto Extremamente Negativo: a motivação do assassinato é relacionada ao “amor demais” e fica por isso mesmo. Nada mais é abordado, nenhum direcionamento de tratamento para as pessoas que passam por isso.

Existe uma enorme diferença entre uma “relação de dependência” e uma “relação de amor” e tais diferenças precisam sempre ficar claras. Não é porque temos algumas características em comum que podemos considerar as duas situações como sendo amor.

Relações de amor servem para que as pessoas envolvidas sintam-se bem e complementem os demais “setores” da vida da pessoa. Relações de dependência costumam servir para ocupar o espaço deficitário dos outros setores da vida da pessoa.

Em relações de amor prezamos pelo respeito e bem-estar da outra pessoa. Em relações de dependência notamos que a pessoa preza pela permanência da outra ao seu lado, custe o que custar.

Em relações de amor sentimentos como ciúme e insegurança podem surgir, mas costumam ser resolvidos através do diálogo. Em relações de dependência estes mesmos sentimentos tendem a incomodar tanto que o diálogo parece ser impossível, podendo se transformar em transtorno de forma muito rápida.

Sugestão

Dado o investimento que a Globo fez para produzir esta série, seria interessante que o assunto não ficasse tão solto. Alguns comentários poderiam ser feitos para deixar claro que as situações em questão não representam “amor demais”.

Afinal, qual seria a solução para o “amor demais”? Será que o problema está no sentimento em si ou em alguns comportamentos extremados que a pessoa exibe e que não retratam o amor de forma alguma? Retratar estes casos como problemas a serem resolvidos seria diferente. Problemas comportamentais/psicológicos, como dependência afetiva, insegurança exacerbada e etc. podem ser modificados.

Com o tratamento adequado a personagem de Susana Vieira talvez pudesse, maquiada e toda revigorada, dar o seguinte depoimento:

“Eu matei, eu matei mesmo. Matei aquele sentimento de dependência que existia dentro de mim. Entendi que as pessoas não são objetos e que elas não pertencem a outra pessoa. Naquele exato momento em que eu percebi que estava sofrendo demais, resolvi procurar ajuda e consegui modificar a situação em que eu estava. Ele? Sabe que eu não sei o que ele está fazendo da vida? Mas a minha eu sei que vai muito bem.”

*Nomes fictícios.


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Casais Felizes: Como Manter seu Relacionamento Saudável

Relacionamentos românticos são importantes para a nossa felicidade e bem-estar. No entanto, mais de 40 por cento dos novos casamentos terminam em divórcio, ficando claro que relacionamentos não são sempre fáceis. Felizmente, existem medidas que você pode tomar para manter seu relacionamento em boas condições 1.

Tempo de leitura: 2~4 min.


Conversar Abertamente

Comunicação é uma peça-chave dos relacionamentos saudáveis. Casais “saudáveis” tiram um tempo para conversar de forma regular. No entanto, é importante falar sobre mais do que paternidade ou manutenção da casa. Tente gastar alguns minutos por dia discutindo assuntos mais profundos e pessoais para que você possa se manter conectado ao seu parceiro a longo-prazo.

Isto não significa que você deva evitar falar sobre assuntos difíceis. Manter as preocupações ou problemas apenas para você pode gerar ressentimento. Ao discutir temas difíceis, no entanto, vale a pena ser gentil. Os pesquisadores descobriram que o estilo de comunicação é mais importante do que o nível de comprometimento, traços de personalidade ou eventos estressantes da vida em prever se casais felizes irão divorciar. Em particular, os padrões negativos de comunicação como raiva e desprezo estão ligados a uma maior probabilidade de separação2.

Desentendimentos são parte de qualquer parceria, mas alguns estilos de “briga” são particularmente prejudiciais. Casais que utilizam o comportamento destrutivo durante as discussões – como gritar, recorrer a críticas pessoais ou se retirar da discussão – são mais propensos a terminar do que os casais que “brigam” construtivamente.

Exemplos de estratégias construtivas para a resolução de divergências incluem a tentativa de descobrir exatamente o que seu parceiro está sentindo, ouvir o seu ponto de vista e tentar fazê-lo rir3.

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 Mantenha o Relacionamento Interessante

Entre filhos, carreira e outros compromissos, pode ser difícil manter-se conectado com seu parceiro. No entanto, existem boas razões para fazer um esforço. Em um estudo, por exemplo, os pesquisadores descobriram que casais que relataram tédio durante o sétimo ano de casamento foram significativamente menos satisfeitos com seus relacionamentos nove anos depois4.

Para manter as coisas interessantes, alguns casais planejam saídas a noite de forma regular. Até as suas saídas podem ficar velhas, se você está sempre assistindo filmes ou indo ao mesmo restaurante. Especialistas recomendam quebrar a rotina e tentar coisas novas – seja sair para dançar, ter aulas juntos ou fazer um piquenique á tarde.

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Intimidade também é um componente crítico nos relacionamentos românticos. Alguns “casais ocupados” acham útil agendar o sexo, colocando-o no calendário. Pode não ser espontâneo ter isto escrito com caneta vermelha em sua agenda, mas reservar um tempo para ter um encontro íntimo ajuda a garantir que suas necessidades físicas e emocionais sejam satisfeitas.

Quando os casais devem procurar ajuda?

Todo relacionamento tem altos e baixos, mas alguns fatores são mais prováveis que outros para criar “choques” em relacionamentos. Decisões sobre os filhos ou financeiras muitas vezes criam conflitos recorrentes, por exemplo. Um sinal de problema é ter versões repetidas da mesma briga várias vezes. Nestes casos, psicólogos podem ajudar casais a melhorar a comunicação e encontrar formas saudáveis de mover além do conflito.

Você não precisa esperar até o relacionamento demonstrar sinais de problema para trabalhar no fortalecimento da sua união. Programas de “educação conjugal” que ensinam habilidades como boa comunicação, escuta efetiva e o manejo de conflitos têm demonstrado redução no risco do divórcio.

* Artigo original aqui.*


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Referências

1 Kreider, R. M. (2005). Number, timing, and duration of marriages and divorces: 2001. Current Population Reports. Washington, DC: U.S. Census Bureau.

2 Lavner, J.A. & Bradbury, T.N. (2012). “Why do even satisfied newlyweds eventually go on to divorce?” Journal of Family Psychology, 26 (1): 1-10.

3 Birditt, K.S., Brown, E., Orbuch, T.L., and McIlvane, J.M. (2010). “Marital conflict behaviors and implications for divorce over 16 years.” Journal of Marriage and Family, 72 (5): 1188-1204.

4 Tsapelas, I., Aron, A., and Orbuch, T. (2009). “Marital boredom now predicts less satisfaction 9 years later.” Psychological Science, 20 (5): 543-545.

“Eu não sei se é amor de verdade…”

Esta é uma frase muito comum de se ouvir no consultório, normalmente por clientes que saíram de algum relacionamento longo e intenso e estão se envolvendo com outra pessoa pela qual ela não consegue sentir “aquele sentimento”. O interessante é que elas não sabem por qual motivo o que elas estão sentindo não é “o amor de verdade”. Mas afinal, existe o tal AMOR DE VERDADE?

“Borboletas no estômago”

Na maioria dos casos o amor de verdade está relacionado com algo constantemente intenso. É aquela sensação de que NECESSITA da outra pessoa, de ficar muito ansioso, querer ver a todo instante. São aquelas paixões adolescentes, intensas… Algo como um roteiro de comédia romântica (algo que algumas pesquisas já mostraram que pode ser prejudicial aos relacionamentos).

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Não é incomum que o amor de verdade esteja relacionado à estas primeiras paixões. O tempo passa, este relacionamento acaba, a pessoa se envolve em outros relacionamentos, a sua vida vai mudando, mas ela acaba por não sentir “aquele amor”.

E como um viciado busca aquela primeira sensação, algumas pessoas buscam novos relacionamentos intensos que possam dar a sensação de “borboletas no estômago”. Inicialmente elas conseguem, com o passar do tempo não sentem mais “AQUELA SENSAÇÃO” e deixam o relacionamento no meio do caminho…

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O mais interessante é que muitos encontram pessoas com características que lhe agradam e falam “ele (a) é uma pessoa que eu deveria estar amando de verdade porque tem todas as características que eu gosto…. Não sei o que aconteceu comigo que eu não consigo sentir mais aquele sentimento”. Muitas vezes este sentimento pode ser traduzido como “o medo de perder” que no “amor de verdade” é muito intenso e com o novo relacionamento ele quase não existe.

A pessoa passa a ter certeza de que se não tem medo de perder, se não tem saudade a todo instante e todas aquelas inseguranças, então não é amor de verdade. Mas por qual motivo a pessoa não sente mais isso? Bem, em muitos casos a resposta é muito simples: você mudou.

“Eu vivia em função dele (a)”

Na maior parte dos “amores de verdade” relatados, o que notamos é aquela máxima de que “um vive pelo outro”. E é algo que nossa sociedade até acha bonito, elogia e tudo o mais, mas esquecemos dos efeitos colaterais que isto pode causar.

Pessoas que vivem em função de seu (a) parceiro (a), normalmente deixam outras partes de suas vidas de lado, acabando por colocar os amigos, família, estudos e trabalho como algo que está ali, mas que não tem muita importância. Acontece que quanto mais pessoas e ambientes que possam nos dar “coisas boas” como atenção, reconhecimento e mais e mais relacionamentos saudáveis, menos intenso e menos medo de perder e outros sentimentos incômodos nós sentimos.

Se você vive em função da outra pessoa e passa a deixar outros relacionamentos de lado, adivinha o que acontece? Este relacionamento passa a ser sua única fonte de atenção, reconhecimento, amor e etc… E quando depositamos tudo o que temos em um mesmo pote, passamos a ter muito medo de perder este pote.

 Tudo teve fim e…. Você mudou!

O mais legal em nossa vida é que nós mudamos. Você já reparou como muitas pessoas amadurecem quando terminam este tipo de relacionamento? Em geral elas passam a dar valor a novas amizades, família, carreira, estudo, hobbies e mais um monte de coisas que passam a compor esta nova vida.

E diante de tudo isso a pessoa passa a ter menos medo de perder uma ou outra relação. Na verdade, isto dificilmente passa a ser algo que a incomode. E que coisa boa, não é mesmo? Você mudou! E pelo jeito pra melhor!

Acontece que um belo dia você está se relacionando com alguém e percebe o que eu falei lá no início: você “não sente AQUELA COISA”. E é nesta hora que eu te pergunto: será que tem como? Será que diante de tantas transformações você amará da mesma forma?

“Aquela coisa” nem sempre era fruto do relacionamento em si, mas em como você levava a sua vida, com a felicidade totalmente dependente de uma pessoa. Com o passar do tempo e a sua felicidade dividida em várias esferas da sua vida, mais difícil é sentir AQUELE SENTIMENTO intenso e todas aquelas inseguranças… E isso não é algo ruim!

Provavelmente você aprendeu a lidar com a solidão, sabendo que a sua vida é mais do que um relacionamento e que pra ser feliz você não precisa necessariamente de uma pessoa, principalmente se esta pessoa te priva de várias coisas boas e novas que agora você tem e aprecia. Agora você não quer um relacionamento qualquer e nem que ele seja seu único relacionamento, mas sim um que complemente.

 Enfim um amor ameno…

Pela valorização cultural dos sentimentos intensos, raramente notamos o valor de um amor ameno. Este amor ameno nada mais é do que fruto de uma vida mais equilibrada.

Todos os sentimentos associados ao “amor de verdade” irão surgir em um relacionamento ameno, mas de forma menos intensa e menos problemática. Mas lembre-se: isto não é um problema, apenas uma mudança que pode ocorrer naturalmente ou com o auxílio da psicoterapia.

Para viver relacionamentos mais tranquilos e plenos, experimente se conhecer e aprender o que é valioso para você. Sabe aquela velha história do “eu me amo, não posso mais viver sem mim“? Dessa forma você irá buscar pessoas que venham não mais para ser a razão da sua felicidade, mas para complementá-la e torná-la ainda mais completa.


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Imagens:

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